Quem somos nós?

Recife/Olinda, Pernambuco, Brazil
Um blog aí.

domingo, 17 de maio de 2009

Sobre laços e fossos

O nosso amor mingua
Como num banho morno
Fujo do frio e da língua
Quando evito a palavra
Uso um bonito adorno.
Contorno com esforço
O verso e a poesia
Não mais descrevo o que sentia
Entre nós, se outra havia
Resta, agora, enorme espaço:
Se separados estávamos, por um laço
Juntos, estaremos por um fosso.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Ubaldo

Ubaldo de Pinto T. Farias era infeliz.
Isso porque, desde pequeno, herdou da cacofonia
o Injuriante apelido de Balaio de Pica.
Os amigos sempre o chacotavam, e inventavam piadinhas de infâmia condizente com a fonética do nome.
Um dia um amigo disse ao se despedir de todos no trabalho:
“Vou me embora. E pra quem fica... podem ficar com ele...”
Todos entenderam.
Mas só Ubaldo não riu.
Alguém tentava anima-lo: “Ora, seje razoavi. Antes Ubaldo do que Caio”
E continuava...
“Sabes que é preferível a profusão fálica em sua completude ‘bojal’, do que a decadência broxativa de um nome romano”.
Ubaldo tentou psicologia reversa. Tentou levar na boa por um tempo e ver no que dava.
Mandou algumas vezes as pessoas o chuparem ou qualquer coisa que o equivalesse. Mas desistiu. Não que lhe fosse desagradável o sexo oral, mas que acabaria por sê-lo, somente por lembrá-lo do infeliz apelido.
Por infelicidade psicológica ou revertério divino, Ubaldo passou a sentir pavor, bem como a ter noção real, de toda e qualquer cacofonia.
Era quando gritassem “(...) a Fabi localizou o rolo maior... impressora... cartucho...” que ele surtava... e não só com cacofonias miméticas a seu nome. Quem pensaria que Fabi, nome pequeno, contivesse em si tamanho órgão. Mas ao mesmo tempo, a cacofonia levava aos verbos, e alisar era um verbo pavoroso.
Ubaldo fugiu.
Foi ao estrangeiro. Seria um tempo tão bom. Mas mesmo que ninguém conseguisse identificar a maldita cacofonia. Ele o fazia.
Aquilo, claro, o afetava. E de tão afetado que foi, duvidou de sua masculinidade.
Foi aí que decidiu!
Transforme-se. Muda-se. Fez cirurgia, sabia que não era mais homem. Toda aquela quantidade de caralho no seu RG o maculara.
Arrancaram-lhe o pinto.
Mudou de nome, claro. Talvez fosse essa a maior justificativa. Arrancaram-lhe o ‘de Pinto’ Pois não.
Na escolha... um nome bonito...
Como deveria ser.
Paula.
Ainda que ameaçador, o nome lhe soava agradável, familiar. E não cacofônico.
Tudo resolvido, Paula era uma mulher adorável... vivia feliz e contente. Sua vida, agora, seria melhor.
Seria.
Se o ‘T’ abreviado no seu nome, não carregasse a graça de Tejando.
E agora.
O que tu, no lugar de Paula Tejando Farias.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ela

Que de longe me acalma...
parece viva!
Na noite escuta meus pensamentos, palavras e idéias!
às vezes, por mim deixada de lado...não sei o porquê...
E quando lembro que a dias não a percebia, tento matar a
saudade e me redimir, contemplando o que pra mim é Luz!
Se ela sente minha falta, se ela é tanto quanto eu penso...
não tenho certeza.
Só sei que ela me conhece, de tanto eu visitar o seu mundo!
Ela, Lua!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ode ao amor platônico

Entre aspas e reticências, falo
Com metáforas e sinestesias, canto
Pelos verbos, que não transito, ajo
Em preposições e neologismos, espanto
Porém, ao citar pronomes, calo
E sem objeto, toco notas em silencio, mudo
Se em oração, o sujeito oculto
Faço dessa poesia, o meu grito surdo
Pois assim, sob sua revelia, esse amor sepulto.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Ossos negros

Procuro na escuridão o meu bem estar
É calmo é aconchegante é convidativo
Sinto as costelas o sangue o coração
Tudo parece ter mudado de ritmo

Reconheço meu lugar dentro da sombra
No espelho olho e não me vejo
Apenas carne e cabelo tentando me esconder
No escuro meu reflexo me conforta
Nada vejo nada sinto

A aura de sangue sombra e mistério me cerca
Encantado, começo a aproveitar
Eu mesmo! Finalmente
Ira maldade e frieza, tudo a tona

O êxtase invade meu espírito
E logo eu quero invadir também
Chave escondida, arrombamento... Nunca descobrirão
Em seu sagrado lar estive
Levei sangue sombra e excitação

A poucos metros de mim
Família cansada e indefesa
Se eu quiser, o que eu quiser
Não foi por isso que eu vim

O frenesi sobrepõe-se, mas tem fim
Não há sangue. Há sombra
Rompeu-se a combinação perfeita
Sinto-me diferente, estou ausente e presente
Recolhida a personalidade outra acorda
Ligue a luz! Quero me ver


25/02/2008


*Encontrei o papel quase sem pontuação, achei melhor não mudar

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Degustação

As lagrimas caíam na boca.
que gosto amargo elas tinham!
A língua, entretanto, persistia em saboreá-las,
como se, ao sentir totalmente seu sabor, pudesse por fim a dor.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Um trago

A inquietação veio buscar o tédio há tanto instalado. O efeito foi como de um tapa que traz de volta à consciência o coma, quase já perfeitamente incorporado. Mas quase!

Que ânsia boa, tão boa! A circunstância me leva inclusive a apreciar e degustar sua passagem por mim, já que, fazia muito, não a sentia. O difícil agora é somente impedir os devaneios da imaginação que a espera faz se multiplicarem, junto com o tempo do aguardo.

Não tenho a mínima idéia se corresponde ao real, mas tenho que me apressar de encontro a Platão, o limite se aproxima.

Eu só quero não deixar a consciência tomar conta, para roubar a espontaneidade do breve divino, beijar antes de tudo, abraçar um abraço todo e, gozado, fumar um ciagrro. Um que seja.